O Papiro Mich. inv. 193, datado do 2º e 3º séculos EC, preservado pela University of Michigan Papyrology Collection, contém um texto em grego do período romano no Egito.
Os acadêmicos classificaram o conteúdo como “amuleto mágico”, sem terem comprovado a existência de qualquer ritual ou de magia no texto. O manuscrito apresenta uma oração com pedidos de proteção e o uso reverente do Nome Sagrado.
Entre as expressões, destaca-se a sequência:
Texto original
θεὸς ὁ ιaω, κύριος πaντοκρaτωρ
Texto transliterado
Theós ó Yau, Kýrios Pantokrátur
Texto traduzido
Deus ó Yau, Senhor Todo-Poderoso
Nos séculos 2 e 3 EC, o Egito romano era um ambiente de intensa convivência cultural entre tradições judaicas, helenísticas e egípcias. Comunidades judaicas de fala grega (diáspora) mantinham viva sua fé adaptando suas crenças ao contexto linguístico e cultural grego, sem necessariamente abandonar sua identidade semítica.
O uso de orações escritas, salmos e o Nome Sagrado como forma de proteção pessoal era um costume comum. Diferentemente da visão moderna que separa rigidamente “crença” de “magia”, na Antiguidade Tardia invocações divinas serviam tanto para devoção quanto para proteção cotidiana.
JUDEUS DE FALA GREGA USANDO O NOME DIVINOA presença da transliteração ιαω (Yau) demonstra que judeus da diáspora que falavam grego procuravam preservar a pronúncia do Nome Divino mesmo fora do hebraico original. Durante os períodos helenístico e romano, muitos judeus utilizavam o grego como língua cotidiana, inclusive na leitura das Escrituras, nas orações e na comunicação entre comunidades dispersas.
A forma grega ιαω encontrada no papiro demonstra que judeus helenistas procuravam preservar foneticamente o Nome Divino mesmo utilizando o alfabeto grego, mantendo sua reverência e sonoridade sagrada fora do ambiente hebraico tradicional.
O NOME DIVINO NO PAPIROO Nome aparece claramente transliterado como ιαω (Yau), associado ao título παντοκράτωρ (Todo-Poderoso).
Essa combinação é típica da crença judaica-helenística, onde o Altíssimo de Israel era invocado com reverência e temor.
ESTRUTURA FONÉTICAOs escribas gregos enfrentavam um desafio ao tentar reproduzir fonemas semíticos inexistentes em seu idioma:
Resultado: ιαω ≈ YAU, vocalização helenizada do Nome Divino.
PROVAS COMPLEMENTARESEssa pronúncia não é isolada. O fragmento bíblico 4Q120 de Qumran (século 1 AEC), um dos mais antigos manuscritos da Septuaginta, já utilizava ιαω para transliterar o Tetragrama יהוה no livro de Levítico.
A IMPORTÂNCIA DO NOME
Para as comunidades judaico-helenísticas, o Nome Divino não era para ser ocultado, mas uma fonte de proteção, poder espiritual e continuidade histórica. Sua transliteração em grego demonstra um esforço consciente de preservar a sonoridade sagrada original, mesmo em outro alfabeto e cultura. Esse papiro é, portanto, um importante testemunho da fé judaica na diáspora egípcia, revelando como o Nome Sagrado atravessou séculos, culturas e línguas.
ISSO DOCUMENTA QUE:
φυλακτηρίων ·
μέγας οὐράνιος, εἰλῶν τὸν κόσμον,
ὁ ὢν θεὸς ὁ ιaω, κύριος παντοκράτωρ
5Ἀβλαναθαλααβλα, δῦς δῦς, τὴν χάριταν
5ἕξω τὸ ὄνομα τῶ μεγάλου θεοῦ ἐν τῷ
φυλακτηρίῳ τούτῳ, καὶ φύλακξόν μοι
ἀπὸ παντὸς κακοῦ πράγαμτος, ὃν ἔτε-
κεν ἡ δῖνα, ἐγέννησεν.
Uma filacteria: “Grande no céu que sustenta o mundo, o verdadeiro Deus ó Yau, Senhor Todo-Poderoso, conceda, conceda-me este favor, deixe-me ter o nome do grande deus nesta filacteria e proteja-me de todo o mal, a mim que gerou, concebeu.”
*A tradução direta de “Theós” e “Kýrios” para o português utiliza termos teológicos posteriores e genéricos, como “Deus” e “Senhor”. A palavra “Deus” é cognato do grego Zeus, ambos relacionados a uma mesma origem antiga. Já “Senhor” reflete a tradução de um conceito semítico expresso por termos como “Baal”.
FONTES
DCLP/Trismegistos 63847 = LDAB 5061 = michigan.apis.1546
Link:
Papyri.info
P.Mich.inv. 193 | Advanced Papyrological Information System (APIS UM)
Link:
University of Michigan Library